terça-feira, 24 de maio de 2011

SENTIDOS SOB'RE A TRANSIÇÃO


Como sabemos e vivemos (não necessariamente nessa ordem), a vida é uma constante transformação. Neste ano de 2010 não foi diferente comigo, mas a diferença residiu no fato de que a mudança não só foi percebida, foi apoiada! Para se sustentar como transformação, foi preciso agir com minha diposição, e me dispus! O primeiro ano do doutorado foi um ano de novidades na minha vida.  Elaborei um campo conceitual que me é familiar, mas também estranho.
Contudo, essa elaboração implicou-me questões práticas. Entre elas, os rumos que minha tese, minha forma de pensar vinham tomando.  Me peguei, me critiquei, me des-orientaram. Eis aí passagens dessa transição que não foi toda apoiada dentro do programa de pós graduação em Psicologia Cognitiva da UFPE.

Por uma conversa sobre a vida


Querida professora, escrevo a senhora essa carta pra conversar sobre esse momento do processo da construção da tese e doutoramento que me desperta á vida.
Sinto-me mesmo diferente. E isso não consigo dizer com exatidão quando e como começou. E me pergunto se essa dúvida tem mesmo uma resposta, ou se posso a ela conferir sentidos que podem variar ao longo das experiências. Pois! O sentido que dou agora, é que minha transformação continuou de outro modo quando a senhora se dispôs a me orientar. E ainda conta com meu percurso no mestrado, minha experiência de morar num outro lugar e distante dos laços parentais, estar com dedicação exclusiva ao doutorado, ler/escrever poesia, ler/estudar filosofia, me sentir sensível nas experiências de cada momento, em especial nos meus momentos de diálogos com alguns filósofos e com Leandro sobre a vida que em nós passa! Conectei me a arte de viver.
Quando comentei com a senhora que havia entrado em crise epistêmica, iniciei ali um diálogo a respeito de que em mim algumas transformações começavam a ser percebidas. De repente me percebi a caminho de outros modos de reflexão. E a reflexão aqui pensada mesmo, como um movimento reflexivo onde o foco é o próprio modo de refletir.
Me recordo com muitos detalhes  do momento da entrevista para o doutorado, quando  as perguntas de natureza conceitual, dirigidas pela professora Selma a mim, colidiram em tamanha dureza do muro que obstaculizava os meus olhos. Assunto que ainda não havia parado para refletir com sensibilidade, mas apenas racionalização científica. Porque se perguntar sobre as relações conceituais dento de uma área de conhecimento? Será porque elas permitem em/por/ para nós a construção de compreensões?
Curiosamente, as reflexões sobre o ser humano como potência e complexidade me geram muita curiosidade há tempo, mas nunca da forma como passaram a ser conduzidas desde os esbarros dos sentidos produzidos pelo momento de passagem e formação dentro da pós graduação. E gostaria inclusive de mencionar que a disciplina de seminários avançados I do doutorado foi providencial para este processo de reflexão que me encontro.
Parece que a reflexividade que venho construindo a cada encontro de leitura, conversas, supervisões, aulas, tem clareado meus olhos, tem me feito ser de outro modo. Eu sinto uma sensibilidade que me encostou aos pensamentos. As minhas leituras da vida chegaram em mim como estudante de doutorado de psicologia. A elaboração tem acontecido dentro de um tempo calmo, um tempo que não tem sido controlado apenas pelo passar cronometrado do relógio (obrigada Salvador Dali por tê-los derretido em um momento tão importante da história), mas um tempo relacionado à experiência. O tempo da experiência ao longo da vida, em especial a partir desses anos no programa. O tempo da experiência tem sido solo fértil para minha transformação, e há em mim um desejo de dialogar essa transformação com a senhora. Dialogo, friccionar o verbo, na lógica de dois, de muitos ele nasce.
Eu, mais que, desejo construir entendimentos de como temos entendido a dimensão do ser psicológico do ponto de vista epistêmico. Qual lógica conceitual estrutura uma perspectiva teórica, como ela conceitualiza os fenômenos, e como nós a partir delas  nos aproximamos de outros campos do saber e geramos modos (método, modelo) para demonstrar a forma de ser ou se comportar de tal fenômeno? É momento de dialogo com a epistemologia.
Inicialmente caminhava num percurso de entender como era possível comportar-se a metacognição durante a compreensão textual na criança. Agora me vejo com preocupações que são anteriores. Brota em mim, de modo intuitivo e sincero, um desejo de compreender como no campo teórico da psicologia cognitiva os conceitos de (metacognição e compreensão textual) assumem significados, como eles permitem entender determinado fenômeno, e como é possível demonstrar que esses fenômenos existem e acontecem (o fenômeno no evento/situação).
A parte do método dentro de um projeto é o que, se não justamente o modo pelo qual construirei uma demonstração daquilo que hipotetizei a partir da teoria?
Em psicologia cognitiva em particular, temos insistido em invetsigar a cognição a partir de um paradigma de ciência que tenta isolar o ser humano do mundo (coloca-se a aqui dentro todas as teorias do processamento da informação), e quando  investigado a partir de um modo “relacional”, este mundo se encerra numa ideia de mundo ambiente composto de objetos (todo o construtivismo) e se esquece de enfatizar a dimensão relacional humana que media o contato com os objetos.
Ainda, tem se inisistido na  demonstração do comportamento de certos e muitos  fenômenos (já referidos teórica e empiricamente), a partir da lógica de representação do plano cartesiano. Ou seja, a partir do modo matemático e estatístico para demonstração de como podem os fenômenos no espaço acontecerem/comportarem-se. ( Estou escrevendo e elaborando de modo mais claro a relação que faço a seguir).
O plano cartesiano, um modo representacional matemático de demonstrar como algo pode se dispor no tempo e espaço e as possibilidades dessa disposição se comportar, segue toda uma lógica numérica. A atribuição de valor/significados aos números dentro do plano  é feita por  medidas objetivas.
Um número (o representante conceitual) é corresponde ao valor de sua intenção representativa. O numero encerra nele mesmo seu significado/referente/valor, o representante de 1 é o valor 1 correspondente a 1 coisa só.
Um modelo de representaçãoabsurdamente genial,  porém,  penso que  deve ser refletido nos termos de suas limitações para estudar a complexidade do fenômeno do ser humano, especialmente quando estamos falando dos modos de tranformação do ser humano, dos modos de pensar, de atribuir sentidos, de construir significados.
Um ser que é estavelmente dinâmico, ao mesmo tempo no espaço pelo qual se desloca, se constitui, se transforma (o constituir, o transformar e até o deslocar, estão sob efeitos da dimensão que é a historicidade do espírito do tempo em cada época. Assim além do tempo e do espaço, temos essa dimensão de historicidade que se constitui pela dinâmica social, econômica, cultural de cada lugar e tempo).
Estamos falando de seres humanos interagindo em situações reais, situações da vida que alteram a cada instante , e alteram  o modo de pensar e sentir.
Na linguagem, fora dos números, não podemos dizer que um determinado conceito encerra em si seu referente/significado. Não podemos dizer isto pois o conceito construído a partir da palavra, diferente do conceito numérico, vai ser valorado a partir de que ele pode assumir sentidos, vários. Tudo vai depender da situação.  A linguagem possui como dimensão o(s) sentido (s), e o (s) sentido (s) se produz(em) justamente quando se encontram sensibilidade (aquilo que é sensação no todo do ser),  racionalização (no usar a consciência, a atenção, a razão ,de modo a produzir re-flexões), e as situações relacionais das experiências  ( a vida acontecendo em relações).
Me pergunto então, se não é importante antes de criar condições experimentais ou pré-experimentais para avaliar o comportamento e ou desenvolvimento de determinado fenômeno, se não é crucial, atentarmos para como estamos compreendendo a possibilidade de ser desse fenômeno que pretendemos estudar?
A psicologia que tenho pensado e sentido, me coloca num movimento de refletir e ser ciente da lógica (ciêntífica) de compreender o ser psico-lógico.  Acredito e vou defender, que a ausência de uma reflexão nesses termos que tenho me colocado a pensar, pode nos deixar um tanto duros a ver o que ao nosso redor têm acontecido. Nos fechamos a ver as situações em que as coisas são sentidas e significadas, para criar situações ideais em que se possa significar e assim serem desenvolvidas. Há potência no ser para além do que geramos de ideal/racionalizado sobre ele. Dizer que um fenômeno é de tal maneira, ou pode vir a ser de tal maneira, não encerra as possibilidades totais dele vir a ser!
Defendo que precisamos observar a partir de uma re flexão (um pensar sobre como nos inclinamos a compreender), as várias situações relacionais das experiências que podem convocar compreender e refletir; pois estas constituirão os modos como o entendimento poderá ser construído. O processo de ensino e aprendizagem se pensados a partir de que estamos de forma conjunta construindo entendimentos, esses ganham potência conceitual e avançam a uma ideia de que são também processos de produção de conhecimento tanto para nós como para as crianças.
A produção de um conhecimento não se restringe à escola, ainda que esta tenha um importantíssimo papel sobre este processo (que espero poder dialogar em algum momento). A produção de conhecimento assim como a educação têm a ver com o modo como concebemos a cultura (isso também tratarei de modo mais sistemático em outro momento).
Então? Eu, Ana Paula, um ser humano que está aberto a expandir a partir das mais variadas experiências possíveis de se ter na vida, gostaria de construir uma tese que pensasse os conceitos que vou investigar, como potência/ como algo que pode vir a ser de vários modos. Para isso preciso me voltar sobre as perspectivas teóricas e contrastá-las, da mesma forma é preciso refletir sobre o modo como esses conceitos podem ser demonstrados, há lógicas para falar do ser psicológico.
Que conduta nos permite dialogar  razão e sensibilidade? Existem muitas lógicas para produzir compreensão. A criança em particular, além de seus modos de compreender, é muito sensível ao que está no seu redor, ela tem uma curiosidade que não segue um método ou muitas vezes um conceito, ela está aberta, ela está disposta no mundo. Guiada pelo evento do ser, nas suas oscilações afetivas, ela vai construindo sua (s) lógica (s) em interação com as mais variadas situações relacionais, seja em casa, seja na escola; até por exemplo, chegar a ser uma Aninha, uma Alina, um monte de seres do mundo que seguem na busca incessante de compreender e construir a partir de lógicas epistêmicas, lógicas para entender o ser e assim desenvolvê-lo, prefiro a ideia de transformá-lo.
Professora, a vida é tão rara!
Eu não quero deixar apagar o infantil que em mim habita como potência, possibilidade de vir a ser, e que mistura em mim sensibilidade e ciência.
Pensar o comportamento em variáveis não dá conta da complexidade do comportamento do ser. Há no mundo arte que dança no espaço em dis-curso e ciência que busca seguir reto em curso. Mas porque a ciência não pode se encostar a arte? Quem encosta a arte à ciência é a filosofia, e precisamos construir um diálogo entre elas.  As coisas nos tocam, a música nos toca, a poesia nos toca, a vida nos toca na pele, e dar um sentido para o que nos toca, nunca esgota aquilo que em nós chega como toque. Um entendimento é sempre uma linguagem para o infinito que nos chega.
Como abrir o conceito da não contradição na ciência psicológica e assumir que sim, uma coisa pode ser e não ser ao mesmo tempo. Meu entendimento da coisa, é uma versão sobre a coisa, e não totaliza o que a coisa pode ser. Uma criança pode compreender e não compreender. Vai depender da situação. Mas considerar que vai depender da situação convoca que se discuta como o (s) modelo (s) epistêmico (s)  deixa (m) o conceito de situação ser.
Vamos cultivar esse dialogo na minha tese? Vamos refletir sobre os modos como os conceitos de compreensão e reflexividade podem ser compreendidos e vêm sendo?  Os conceitos buscam dar conta de “fenômenos” e me pergunto se são mesmo fenômenos a quem devemos somente atentar, ou se pensar o ser psicológico deve expandir de um conceito de fenômeno psicológico, para um de situações de constituição e transformação do psicológico. O ser psico-lógico no mundo é um evento que acontece desde que foi concebido até morrer, assim penso que os eventos que fazem emergir a reflevividade e a compreensão (se textual), fora das situações classicamente tentadas de serem conhecidas, deveriam nos intrigar.
Professora, se as palavras podem também seguir os sentidos do coração, as minhas desejam chegar aí. Sinto que há uma beleza no ser a vida que razão sozinha não deixa ver, muito menos expressar.  A oportunidade tão rara de viver (e estar conectada a pessoas que ativa-mente me convidam, mesmo sem saber, a um dialogo que sempre me transforma) quer se expandir…

…as palavras ganham sentidos em nós
é preciso sentir a imensidão que há
é ela quem a colhe
Porque há d-entre nós expansão

Obrigada por se dispor a me escutar, a me ler, a me trans-formar.
Com amor e reflexividade, Ana.

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